Ofélia (1889), óleo sobre tela, John William Waterhouse
Recordo-me com clareza do que sonhei na madrugada de julho em 2024, um sonho que pode ser considerado o pesadelo de muitos. Eu morria por eutanasia. Não me lembro ao certo se havia contexto do porquê dessa morte, se era condenação ou vontade própria, mas não estava nem um pouco desesperada.
Já havia tido essa experiência de “morrer” em sonho antes, sentindo um misto de angústia e, estranhamente, conforto. Demorou alguns segundos para o tempo do remédio funcionar, ainda me sentia a vida passar pelas minhas veias de forma plena e estava sozinha. O processo foi o mesmo do primeiro sonho que tive — silencioso, lento, solitário e abrupto — a diferença é que a clínica responsável pela minha situação havia me posto nos fundos de um pequeno furgão branco com uma contagem regressiva. Vi os poucos minutos que faltavam até estar fora deste plano, então fui invadida por uma ansiedade muito antiga, daquelas que se é acompanhado desde de criança. Na verdade, foi um choque de realidade: aquele era o fim definitivo e eu estava absolutamente sozinha. Em um ato de desespero esperançoso, abri a porta bruscamente e respirei o ar, quase chorei ao senti-lo adentrar minhas minhas narinas. Pulei do veículo — uma aterrissagem dolorosa, pela velocidade —, ficando um segundo parada para raciocinar, então comecei a descer a ladeira, por ser o que me restava após desistir, mas acabei avistando um funcionário da clínica, que parecia surpreso pela minha fuga. — Fiquei com medo do remédio não funcionar e de me fazer morrer sozinha e sufocada. — contei ao vê-lo. — Pensaram nessa hipótese, então fui mandado para seguir o carro e ver se funcionou. — foi sua resposta, sorrindo para aliviar o clima. — Você pode ficar comigo até o tempo acabar? Por favor, não quero ficar sozinha.
E ele aceitou, sem relutância. Ficamos conversando como fossemos íntimos e meu professor de química e física da época se materializou como o motorista — sonhos sendo sonhos —, com o mesmo deboche de sempre. Nesse tempo, me senti acolhida. Meu erro foi olhar o timer, vendo-o acabar cada vez mais e mais. Novamente, a ansiedade pré-histórica atacara, fui inundada por medo arrependimento — quero, verdadeiramente, isso para mim? Não tinha tempo para voltar atrás ou como voltar. Fragilizada, pedi ao funcionário que segurasse minha mão, para sentir calor humano uma última vez — também pedi isso ao meu professor. Não chorei, apenas ri. Fiz piada, como um dia qualquer, como se tudo de repente estivesse certo, nada mais errado, aquele era o meu epítome. Contudo, aquela seria a minha deixa. Ambos faziam o possível para deixar o clima agradável, com piadas e entraram nas minhas brincadeiras. Pouco antes do timer acabar, ainda segurando as mãos dos dois, comecei a agradecer por estarem comigo, como aquele gesto significou tanto para mim. Mas nem consegui terminar de agradecer, tive meu último suspiro e o véu da morte cobriu minha vista. Ao acordar, me cobri com o cobertor, sentindo a mesma sufocação, me questionando se realmente morri e aquilo era o limbo. Encarei a parede, sentindo a maciez e o calor, refletindo sobre o que acabara de sonhar. Como já mencionado, sabia que, provavelmente, havia um contexto, porém nada, até hoje, me levou a ele, só permaneceu na memória a macabra morte “pacífica” e medonha. Pelo menos, realizei meu desejo: não morri solitária, morri sorrindo, acolhida. |
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